O projeto em arquitetura paisagística

Autor: Profa. Dra. Marieta Cardoso Maciel - Data: 21/09/2016

Prof Marieta Cardoso Maciel

Tudo que conhecemos é resultado de herança, assimilação, investigações, descobertas e indagação.
Em todos os tempos da vida do homem sobre a terra, em todos os lugares, nas facilidades e nas dificuldades, o homem enfrenta as indagações do seu pensamento e da sua inteligência.

Questionamentos que se respondem, porém, quase sempre de forma insatisfatória ante os avanços alcançados nos campos científico e tecnológico.

Questionamentos que induzem a mais buscas e achados. São os responsáveis pela prática e pela teoria da arquitetura e do urbanismo.

O arquiteto, desde os tempos de nosso patrono Vitrúvio, é ainda o profissional que imagina paisagens e as constrói. Reproduzo texto da excelente publicação da Hucitec, Da Arquitetura, de Vitrúvio (2002, p. 49):

A ciência do arquiteto é ornada por muitos conhecimentos e saberes variados, pelos critérios da qual são julgadas todas as obras das demais artes. Ela nasce da prática e da teoria.

Prática é o exercício constante e freqüente da experimentação, realizada com as mãos a partir de materiais de qualquer gênero, necessária à consecução de um plano.

Teoria, por outro lado, é o que permite explicar e demonstrar por meio da relação entre as partes, as coisas realizadas pelo engenho. (...)

É na realidade que os resultados da arquitetura e urbanismo são vividos, percebidos e avaliados pela sociedade, o que revela a responsabilidade do arquiteto com o lugar, com o tempo, com as coisas e, acima de tudo, com as pessoas.

Os projetos e as realizações em arquitetura e urbanismo constituem trabalhos valorizados ambientalmente pelos seus aspectos antrópicos e ecológicos e por serem indutores criativos das cenas urbanas e não urbanas.

A ocorrência de grandes concentrações urbanas e a constante utilização dos recursos naturais, paralelamente à evolução da consciência ecológica, impõem novos desafios profissionais à Arquitetura e Urbanismo.

A nossa cidade - Belo Horizonte - como as demais metrópoles, começa a se reinventar. São lugares construídos, destruídos e reconstruídos que se transformam em outros cenários. Talvez até com perda de qualidade paisagística.

No processo de transformações das cidades, é verdade que as mudanças sociais são mais aceleradas que as mudanças materiais, as concretizadas. Nesse clima, compete que os profissionais de arquitetura e urbanismo criem instrumentos para a fruição dos espaços urbanos atuais, seja na sua mobilidade, ambiência e embelezamento.

Os projetos e realizações em Arquitetura e Urbanismo estão valorizados pelos seus rebatimentos nos campos sociais e ecológicos e por serem indutores criativos das cenas urbanas;


A atuação do profissional na realidade, por meio de projetos ou desenhos e das suas construções, é decisiva para a importância da preservação, recuperação e transformações dos cenários humanos e consequentemente da concretude da arquitetura e do urbanismo.

É dentro desta dinâmica de mutações e reorganizações dos espaços urbanos e não urbanos que o ensino do projeto deve subsidiar ações realísticas dos futuros profissionais que serão os responsáveis pela melhoria de todas as paisagens.

A interface da Arquitetura e do Urbanismo com as demais ciências proporcionará desenvoltura, conhecimentos novos, integração e resultados eficientes no ambiente. Serão testados e utilizados na realidade, o que é o nosso objetivo e a nossa responsabilidade.

Então se inicia a fase das realizações, onde o arrojo, o idealismo, a curiosidade e principalmente o conhecimento específico e multidisciplinar são as condições essenciais ao profissional de hoje.

Aliadas a essas condições, a sensibilidade e a percepção do arquiteto lhe trazem o conhecimento empírico, ou seja, aprender fazendo, sentindo, experimentando e comprovando.

A intervenção arquitetônica interfere na paisagem urbana e por isso é um projeto ambiental que, além dos conhecimentos da arquitetura, não prescinde das nuances de todas as ciências que compõem o meio ambiente. A partir de tais conhecimentos, obtêm-se as diretrizes para que essa intervenção seja a mais adequada possível ao lugar e à região.

Recorro ao meu outro grande mestre Joaquim Guedes que fala, no Prefácio, do livro Eupalinos ou o arquiteto, de Paul Valéry :

Como formar os construtores do novo milênio?
Faculdades de Arquitetura não diferem muito das velhas Escolas de Belas Artes; parecem não saber atualizar o ensino da construção, coisa de engenheiro.

Estimulam exercícios fantasiosos, falsas-mega-estruturas, indiferentes à natureza dos problemas propostos, exageradas, insolúveis, ou absurdas; exercícios que excluem o aprendizado da paisagem e dos fatores econômicos e sociais, e maltratam as técnicas, em sua natureza e em seu papel enquanto cultura.

Os constrangimentos ambientais ou de ordem prática são tidos como ameaça à liberdade criadora! Assim, insuficientemente consideradas as "necessidades da natureza", como define Alberti - que incluem os materiais de construção, o lugar e os humanos -, e sem conhecimentos suficientes da arte de construir, perdem-se em desenhos exploratórios do nada, erráticos e supersticiosos: dará certo? Terei sucesso?

O projeto em arquitetura e urbanismo é a organização dos elementos artificiais e dos naturais utilizados (virgens, originais, indefinidos, o que são?) com racionalidade ecológica.

Mesmo assim deve, quando possível, ser estruturado pela técnica, pela ciência e pela arte. Deve gerar valores positivos à vida do lugar e da cidade, levá-los a um estágio melhor, como comprovado universalmente.

A arquitetura (quando falo arquitetura falo das suas especialidades no projeto de edificações, interiores, paisagismo, patrimônio cultural e urbanismo) tem dois momentos essenciais: O projeto e a execução. O projeto é a intenção e a execução é a ação.

O projeto é composto de duas fases. A primeira é a da ideia pensada (virtual e personalizada). É legível apenas para o autor, pois é única, virtual e individual. A segunda fase é a da ideia desenhada.

É a representação gráfica da primeira fase (é um documento legal). Essa segunda fase deve ser legível a todos os envolvidos, pois é de âmbito coletivo. Acontece ser o desenho hoje tão virtual que não consegue ser real...

Para a concepção da ideia pensada, são imprescindíveis os conhecimentos empíricos, do meio ambiente onde se insere a arquitetura e o urbanismo, a vida e o mundo.

Já, a ideia desenhada exige todos os conhecimentos técnicos, construtivos e científicos, já comprovados para o uso real e apresentados sob as formas estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT - Estudo Preliminar, Anteprojeto e Projeto Executivo, que são os componentes do projeto em arquitetura e urbanismo e que devem dar as condições de utilização (utilitas), expressão plástica (venustas) e concretude (firmitas)

A ideia pensada é gerada a partir do conhecimento da realidade só conhecida por meio da práxis e da pesquisa, e que refletirão o cenário real com seus problemas a serem resolvidos; acertos a serem preservados e ampliados e potencialidades a serem estimuladas.

São condições para a elaboração da proposta que visa a melhoria das condições e paisagens anteriores. Racionalizam-se as atividades possíveis e elabora-se o programa diretriz da proposta.

A ideia desenhada surge da sensibilidade na tradução do pensamento para a razão. É nesse momento que a geometria e todos os conhecimentos científicos e gráficos contribuem com suas regras e teorias, catalisando a ideia formal e funcional para a solução do lugar naquele tempo.

O uso da geometria e da matemática na fase da ideia pensada, na fase da ideia desenhada e na fase da realidade, é o fator catalisador entre o abstrato e o lógico.

A representação da ideia no papel ou no computador é o referencial espacial e temporal do projeto. A concretização do projeto, quando adequado, e baseada em técnicas contemporâneas, irá minimizar e até evitar erros construtivos, envidando fidelidade entre o projeto e a obra.

Cada projeto, ainda que existam diretrizes preestabelecidas, é um caso singular, envolvendo as peculiaridades ambientais de cada lugar, de cada arquiteto e dos sujeitos, razão pela qual são importantes as experiências anteriores ou de outros que serviram de referências para as reinvenções de lugares e outros caminhos para o projeto em Arquitetura e Urbanismo. Continuo com meus mestres. Cito mais uma vez o Mestre Marco Polio Vitrúvio (p. 50)

(...) Desse modo, os arquitetos formados sem instrução, exercitados apenas com as mãos, não o puderam fazer completamente, de forma que assumissem a responsabilidade pelas obras: por sua vez, aqueles que confiaram unicamente na teoria e nas letras, parecem perseguir uma sombra, não a coisa.

Contudo, os que se aprofundaram numa coisa e noutra, como que munidos de todas as armas, atingiram com autoridade mais rapidamente o que era o seu propósito.

Em tudo na verdade, máxime certamente na arquitetura, essas duas coisas estão presentes: o que é significado e o que significa. O que é significado é algo proposto do qual se fala; o que significa é a demonstração explicada pelas regras da doutrina.

Por essa razão, quem vier a professar o ofício de arquiteto deverá estar exercitado nessas duas coisas. Assim, é necessário que seja engenhoso e sujeito à disciplina, pois nem o engenho sem disciplina, nem a disciplina sem o engenho podem produzir o artífice perfeito;


E para que possa ser devidamente instruído, perito em desenho, erudito em geometria, que aprenda história profundamente, que ouça com atenção os filósofos, que conheça música, que não seja ignorante em medicina, que conheça as respostas dos jurisconsultos, que tenha conhecimento das regras da astrologia e do céu.

O ensino atual na escola utiliza exemplos similares, as vezes desatualizados. Quem sabe, o uso de problemas presentes com resoluções possíveis? As novas diretrizes Curriculares pressentem isso...

Cada trabalho a ser feito leva ao prazer de arquitetar, que é a transformação magnífica do abstrato em concreto.
Os desafios colocados para nós brasileiros diante das questões de perdas dos valores naturais, de sua reposição, recuperação e preservação, dos quais somos responsáveis como arquitetos e privilegiados, temos que contribuir dentro na nossa profissão como professores: vencer a desigualdade, utilizar com racionalidade os recursos naturais disponíveis, preservar e recuperar as paisagens perdidas e construir um país mais justo.

As conquistas incorporadas renovam as indagações e a curiosidade leva a novas aventuras, num permanente e sempre renovado desafio do desconhecido.

O conhecimento ambiental urbano - os conhecimentos multidisciplinares - a crítica e autocrítica, a análise dos resultados obtidos ampliam o repertório técnico e humano e alimentam constantemente a sensibilidade e a capacidade de criação.

O contato com o amigo aluno, com os colegas e com todos, me estimula para novas combinações, ideias e realizações. Cada aluno me excita para um ideal e uma realidade, pois temos que nos estimular.

Cada trabalho em arquitetura e urbanismo é um aprendizado a mais, uma nova história e um novo caminho. Talvez seja possível reinventar as paisagens urbanas quantas vezes forem necessárias para um cenário melhor. Acredito nos meus mestres!

Quanto mais se aprende e se conhece, mais se percebe que é muito pouco, do muito, que existe para se saber. É o impulso criador da arquitetura. É o fator gerador de uma próxima produção, e assim sucessivamente.

Cada projeto é um aprendizado a mais, uma nova história e um novo caminho. O mais interessante é o que se está fazendo no momento, pois, provavelmente será possível aprender algo com ele e poder viver uma nova realidade.

Prof. Marieta Cardoso Maciel



Prof. Marieta Cardoso Maciel



Profa. Dra. Marieta Cardoso Maciel
Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais



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